Em junho, agosto e setembro do ano passado coloquei uma mochila na costas e resolvi viver os 3 meses mais intensos da minha vida. Meu destino cruzaria com a Tailândia, Espanha e a Croácia. Vou contar por aqui algumas das minhas aventuras e desventuras. Esta história aconteceu no meio de agosto de 2008. Segue.
Parte 1:
Trovões. Raios. Chuvas. Fazia tempo que eu não via um temporal assim. Meu primeiro na Croácia. Sabem aqueles trovões que fazem tremer as janelas? Então. Admito que teve um que até me fez tremer. Caiu o mundo em Pag (ilha que eu estava).
Parte 2:
Estou no bosque. Torcendo que as 3 horas de raios e trovões que procederam a chuva fossem apenas falsos alarmes. Que nada. Caiu o mundo, choveu água mesmo. Quem me dera se fossem cães e gatos. Me encharquei, minha mochila mais parecia um balde de água. Roupas molhadas, maquina digital ensopada, passaportes,... Sozinho, no bosque, apenas me restou ficar sentado, contraído de frio, esperando que a chuva parasse.

Parte 2 alternativa:
Estou em um quarto. Simples, mas com teto, cama e armário. O banheiro é dividido com os outros hospedes da pensão. Assisto a chuva cair com a maior tranquilidade e aíivio do mundo. Minhas coisas estão ali, sequinhas, e eu também. São 11 da noite e tenho até sono. Vou dormir ouvindo os pingos da chuva bateram na janela do meu quarto, no chão da minha sacadinha.
Graças a deus, a parte 2 alternativa é a verdadeira.
A história que antecipou essa minha sorte foi a seguinte:
Após passar minha terceira noite no bosque, lá estou eu, indo pro esconderijo. Faz-se saber que eu dormia embaixo de uma árvore, mas que escondia minhas coisas embaixo de uma moita, mais escondida há uns 30 metros de onde dormia. Pois onde estava dormindo era muito exposto e, durante o dia, pra não precisar andar pra cá e pra lá com 15kg nas costas, escondia minhas coisas numa moita e torcia que ninguém achasse elas. Enfim, lá estou eu, indo pro esconderijo quando me deparo com pelos no chão. Na verdade não são pelos, é uma espécie de lã. E reparo. (Estou há nem 5 metros do esconderijo). São os restos mortais de uma ovelha. Esqueleto e tudo. Frio na espinha. Ok, saquei, tá na hora de procurar um lugar pra dormir onde eu não pise em restos mortais de bichos grandes. Não quero saber como que ela morreu. Decidi que passaria ainda uma última noite no bosque e que no dia seguinte procuraria algo, ou iria pro camping de verdade. No mesmo dia, de noite, indo pro bosque, para dormir, conheço uma eslovena bêbada na praia. Ela pergunta onde que eu estou dormindo e eu digo que no bosque. E ela me diz, misturando esloveno, inglês e espanhol que a previsão era de chuva pro dia seguinte. Ou aquilo era uma pergunta do tipo: você não tem medo que chova? Enfim, vou dormir, e às 7 da manha acordo. Tenho visitas (humanas). Outros hippies encontraram o bosque e fizerem dele a sua casa. Até ai tudo bem, não fosse o fato deles estarem apenas a 10 metros do meu esconderijo. Questão de tempo pra eles acharem minhas coisas e sei lá, não conheço eles pra confiar. Alem disso, eles estavam de barraca, o que é ruim, porque chama a atenção e pode vir a polícia. Ah, e não to a fim de ter problemas com a polícia croata, diga-se de passagem.

Então decidi, ao acordar apos a quarta noite: ok, a combinação ovelhamortachuvaesconderijoaserdescoberto é o suficiente. Sai a procurar um lugar pra ficar. Ao invés do camping, que não valia a pena, 14 euros pra poder botar meu saco de dormir no chão e ainda sim estar suscetível às águas da chuva, comecei a bater de porta em porta, no vilarejo, perguntando aos locais se eles não tinham um quartinho pra mim. Adicionada à pergunta, minha cara triste, subnutrida, e a informação, em meio croata, meio inglês: 4 days plaza (plaza é praia em croata e pronuncia-se muito parecido com playa com sotaque argentino). Apos umas 3 ou 4 casas, encontrei um velhinho que não fala inglês, Simon, que pegou os meus shorts, que a essa altura estavam no meio da bunda, e os levantou pra cima do umbigo e me ofereceu pão. Então estou em um quartinho da casa dele. Não é barato, 20 euros pela noite, mas ver aquele temporal cair umas 10 horas mais tarde e estar num quarto, quentinho, sequinho, bonitinho, não tem preço.
No dia seguinte, conheci umas croatas, que me falaram que no bosque tem cobras e aranhas. Ui. Que bom que não estava mais lá e que economizei uns 80 euros nessas 4 noites e não deu nada.