Se existe algo que é impossível, este algo seria escrever um post sobre a Índia em poucos parágrafos.
Assim como há gente que diz que NEPAL refere-se às iniciais para Never Ending Peace And Love, há quem diga que INDIA é a abreviatura de I’ll Never Do It Again. Com relação a isto, posso dizer duas coisas: A primeira é que isto não faz sentido: a Índia é incrível, muitos sabores, cores, povos... não há como não querer voltar. A segunda é que a Índia gosta de pregar algumas peças conosco. Isto é, se você diz que nunca mais vai voltar pra Índia, ela vai te perseguir até que você volte. É o seu karma.
Bom, passei exatos 30 dias na Índia em julho e agosto de 2003, bem na época das monsões (aquelas chuvaradas). Lá, vivi uma vida inteira neste 1 mês: vi nascer do sol sobre um pequeno barquinho de madeira sobre o Ganges, em Varanasi, tomei xixi de macaco na cabeça também em Varanasi, minha irmã teve a sacola de frutas roubadas à força por macacos gigantes numa estação de trem em Agra, me maravilhei com o Taj Mahal, deixei um garoto de 15 anos cortar o meu cabelo e fazer minha barba com aquelas lâminas estilo anos 70 (paguei R$ 2,00 por tudo), dormi ao relento no meio do deserto na fronteira com o Paquistão, andei dois dias sem parar de camelo neste mesmo deserto (pensei que minha bunda nunca mais seria a mesma – não comecem com as brincadeiras), fui convidado por estranhos na rua para tomar café em suas casas, quase botei fogo no quarto da pousada onde eu estava (deixei o “boa noite” – aquele mata mosquito – ligado, sai do quarto, e o negócio caiu no tapete. Eu estava a não sei quantos quilômetros do hotel e um cara de moto me achou, disse que a pousada estava pegando fogo, subi na moto com ele, ziguezagueando as ruas, sem capacete, pra chegar na pousada (eles não tinham uma chave reserva) e entrar no quarto e jogar baldes de água naquele princípio de incêndo), tive uma intoxicação alimentar fodíssima (dizem que se você foi pra India e não teve uma diarréia, então não foi pra India)...

Vi o Dalai Lama muito de perto e tive uma vontade inexplicável de chorar, fui atendido pelo médico do Dalai Lama, que me deu ervas tibetanas e virei a pessoa mais energética do mundo, escrevi um livro ( se chama Hsedalgnab e o Infinito em 23 horas e 45 minutos), conheci pessoas incríveis que viviam sob os preceitos de paz e amor, shanti shanti, e também verdadeiros hipócritas que diziam acreditar na paz e no amor, mas que na primeira oportunidade que tiveram, se pagaram no pau com a galera.
Em Dharamsala, no norte, fui à uma janta cuja receita (grana) era destinada a refugiados tibetanos e houve um momento em que um israelense pegou um violão e começou a arranhar um Gipsy Kings e, naquele momento, com todo mundo cantando, senti uma energia indescritível e me arrepiei de uma maneira que nunca tinha me arrepiado antes, redescobri as maravilhas da culinária Indiana e descobri a culinária Tibetana (existe um prato chamado Lotsepami, comam pelo menos uma vez na vida de vocês), fui deixado praticamente no meio da estrada pelo motorista de um ônibus (minha irmã e eu éramos os únicos dois passageiros que haviam comprado passagem para o último destino. Como todo mundo desceu no anterior, ele disse que nós teríamos que ir embora ali, pois não convinha para ele dirigir somente para nós dois até nossa cidade), vi pessoas que não tinham nada, mas que eram muito felizes, conheci um homem que vivia numa caverna e estava fazendo greve de silencio ha mais de 10 anos, tomei pílulas anti malária e sofri com os efeitos dela (alucinação e pesadelos), e, mais do que tudo, transformei minha relação com a irmã pra sempre, pra muito melhor.

Enfim, a única coisa que se pode esperar na Índia é justamente o inesperado. Que sempre vem e senta ao seu lado. Este país (ou melhor, este planeta) há de merecer, ainda, um novo post.