Uma sombra sobre a terra do sol da meia noite
Opinião de Budha - 11/8/2011 17:39:42

Um depoimento de Guilherme S. Câmara, que reside na Noruega, sobre o ataque terrorista acontecido lá no dia 22/07 deste ano.

 

           "Para alguém que já ouviu falar casualmente da Noruega, as imagens que provavelmente se formam em suas mentes são aquelas estereotipadas de uma paisagem nevada de proporções mitológicas, habitada por um povo loiro e forte, descendente de Vikings com esquis nos pés (e petróleo no bolso). Para aqueles que possuem um conhecimento um pouco mais profundo sobre as condições sociais naquela terra fria e distante, lá no fim do mundo, talvez associem-na com a qualidade de vida extremamente alta: uma sociedade com baixos índices de desigualdade econômica, corrupção e crime, e um sistema político democrático, humanista, que providencia ampla assistência social para sua população. Os dados certamente conferem, pois em 2010, pelo oitavo ano consecutivo a Noruega foi apontada pela ONU como o melhor lugar no mundo para viver. Superficialmente pode parecer quase uma utopia, uma ilha-oásis calma e segura no meio de um turbulento oceano de nações Européais em tumulto social, político e econômico. Mas esta noção é somente uma ilusão – o paraíso só existe encapsulado numa bolha fŕagil dentro da consciência coletiva do povo, e esta bolha vive sofrendo pressões externas e internas que ameaçam sua existência. Muitos cidadãos Noregueses, como eu, estão hoje desconfiados se esta bolha finalmente estorou depois dos eventos de 22 de Julho ou, se não foi pelo menos seriamente danificada.

          Quem seguiu os notíciarios internacionais desde aquele dia já sabe que a Noruega sofreu um ataque terrorista violento quando 8 pessoas foram mortas devido a uma bomba que explodiu na sede do governo Norueguês em Oslo, e uma hora depois, não muito longe da cidade, na ilha de Utoya, foram massacrados 69 pessoas num acapamento de verão da organização juvenil do partido no poder (o partido trabalhista, Arbeiderpartiet). A maioria das vítimas foram jovens entre 15 e 25 anos de idade. E o culpado? Um tal de Anders Behring Breivik, Norueguês “étnico” – como eles dizem aqui para distinguir os cidadões nativos dos imigrantes. Pois então, um Viking nativo e não o Fulano Muhammed, primo do Bin Laden e soldado da Jihad Islamista global, como os especuladores profissionais da CNN e a BBC, entre outros jornais mundias, imaginaram nas primeiras horas que seguiram os ataques, e aliás quase o mundo inteiro, incluindo o povo daqui. É claro que, devido ao sucesso da mídia ocidental em tornar a palavra "terrorista" basicamente sinônimo de "muçulmano" durante a última década, quando a grande maioria ouve bomba, quase automaticamente se pensa (e grita) ‘Ilsão!’. Com certeza existem motivos que poderiam levar fundamentalistas islâmicos e militantes a atingir a Noruega, por exemplo sua participação na campanha militar da NATO no Afeganistão ou mais recentemente na operação conjunta Européia contra as forças do Gadhafi na Líbia, entre outros. Eu mesmo considerei a hipótese islâmica logo no início, mas fiquei meio desconfiado pois o alvo da bomba não foi espaços públicos ou lotados como nos ataques dos Islamistas em Nova York e Londres. Foi específicamente contra um edifício do governo localizado numa rua quase sem movimento e num horário onde a maioria dos poucos empregados que estavam trabalhando durante as férias de verão já tinha ido para casa. Conversando com um amigo logo depois da explosão, ele mencionou que aquilo parecia mais um ato terrorista “caseiro”, estilo Oklahoma 1995, do que algo do estilo Al-Qaeda 2001/2005. Pouco depois quando ouvimos reportagens em que um homem disfarçado de policial estava fuzilando jovens politicos, futuros herdeiros do partido no poder, só faltava esperar o assasino ser pego para confirmar o que agente já temia – que o inimigo não vinha de fora, mas era “um de nós”. Mas quem somos "nós", e quem é este sujeito revoltado e desgraçado que não se considera parte deste grupo e que não vê nenhum jeito pacífico de viver entre nós?

         Como qualquer termo que tenta agrupar pessoas ao redor uma identidade nacional ou regional, "nós" é uma categoria problemática. Qual é a característica mais importante para ser considerado "um Noruguês"? Tem algo a ver com biología e geografia? Que cor que você tem, de onde vieram seus antepassados, se você nasceu no país e se não, quanto tempo sua familia morou no país antes de você chegar? Ou será que tem a ver com tradição? Quer dizer, conhecer os custumes locais, aceitá-los e praticá-los: falar a língua e vestir os trajes típicos na passeata do dia nacional enquanto cantando o hino e abanando a bandeira? Ou será que são valores políticos, religiosos ou éticos – respeito pela democracia, direitos humanos, etc? Obviamente não existe uma só resposta correta e objetiva e nem unanimidade na opinião pública. Qualquer um que se considera um ser racional e é suficientemente humilde, tem que adimitir que isto é uma questão complexa em fluxo de reavaliação constante e nunca deve se tomar conclusões simplistas e definitivas sobre ela. Este foi o primeiro erro fundamental e eventualmente fatal de Breivik. Num tal de “manifesto” divulgado por ele poucas horas antes de cometer as atrocidades, pode se entrever uma filosofia política que define restritamente não só quem são os verdadeiros Noruegueses, mais tambem os protetores da cultura ocidental na Europa. Em sua análise paranóica e psicótica (fora da realidade) do estado político do continente, ele acredita, como grande parte do bloco de tendência extrema direita, que existe uma conspiração de Ilsamistas e “marxistas culturais” que está manobrando para tomar poder de seus governos.

         O "nós" de Brevik aqui na Noruega então, não inclui qualquer pessoa esquerda de direita extrema e absolutamente todos muçulumanos, porque o Islão é instrínsecamente uma religião violenta, diz ele (que ironia, não é?). Por mais que o grande inimigo na Europa para ele seja " os muçulmanos", aqui na Noruega o perigo maior é o governo social-democrata, que está facilitando a suposta "conquista Islãmica" em mantendo uma sociedade relativamente aberta a imigracão não-Européia e uma cultura política levemente à esquerda, na qual multiculturalismo e integração são valores chave. Após tentar durante vários anos achar um canal democrático para disseminar suas idéais Islamofóbicas, racistas e ultra-nacionalistas, participando primeiro nas fringes dos partidos de direita populistas, e depois se envolvendo com extremistas, percebeu que a maioria do povo achava suas ideias repugnantes e decidiu que a única maneira de advertir a massa iludida pelos islâmicos e esquerdistas sobre o perigo e o medo que sua mente enferma imaginava, era com violência contra seus inimigos. Somente espalhando terror entre a populção, ele acreditou que iria convencer o povo a fechar suas fronteiras e mandar pra for,a ou matar, todos os que discordassem dele, até que a Noruega se transformasse uma monocultura de (brancos) cristãos fundamentalistas e direitistas. Se agente trocasse muçulmanos por judeus, basicamente teriamos uma sociedade Nazista.

         Um criminologista francês uma vez disse que "cada sociedade tem os criminosos que merece". Um Breivik nunca teria sido produzido neste país se já não existisse um sentimento considerável e estabelecido de xenofobia e racismo. Por anos a retórica da direita popular moderada tem aumentado a agressividade em relação à anti-imigracão e anti-islamismo/orientalismo, e seu número tem crescido. Após de uma catástrofe que foi estimulada por estes impulsos, muitos da ala direita estão percebendo o perigo destas ideas quando elas são levadas a conclusões extremas. Em vez de sentir mais medo contra não-Noruguêses ou metade/quase-Noreguesês ou apoiar uma guerra illusória contra um povo e uma cultura inteira que de forma alguma é homogêna e violenta, (pois se existe tambem uma só cultura "cristã" e a lógica de Breivik esta correta, todos cristãos são consequentemente terroristas) – temos que combater ódio e violência com amor e empatía. Temos que continuar a desenvolver esta sociedade numa direcão mais humanista e mais tolerante, tentando sempre eliminar os vestígio da sombra que Breivik e sua ideologia odiosa e segregacionista jogaram sôbre o sol desta terra. Para concluir, posso dizer que o medo imediato que sentimos durante os primeiros dias em Oslo, hoje, duas semanas depois, tem se transformado em esperança e determinação, em uma sociedade ainda mais aberta e tolerante, mas ao mesmo tempo mais alerta e cuidadosa aos perigos do crescente extremismo direitista que ameaça nossa paz, de forma muito mais real do que o extremismo islamista."
 

Budha Khe Rhi | BKRBrasil | contato@bkrbrasil.com